CAPITULO 1
O primeiro som em cinco anos foi o da sua própria respiração. E foi um som estranho. O som de uma máquina há muito desligada, enferrujada, relutantemente voltando à vida. Um arquejo rascante que arranhou sua garganta e pareceu ecoar por um mundo que não deveria mais existir.
Depois do som, veio o ar. Frio e úmido, cheirando a terra molhada e a folhas em decomposição. Ele o sentiu na pele do rosto, um formigamento que era quase doloroso em sua novidade. Kael forçou as pálpebras a se abrirem. A luz do dia o esfaqueou, um branco ofuscante que o fez recuar. Ele levou um minuto, dois, até que o mundo parou de nadar em um mar de luz e tomou forma.
Árvores. Grossas, selvagens, de um verde tão profundo que parecia negro nas sombras. E acima delas, rasgando um céu de um azul irreal, estava a imagem que sua mente se recusava a aceitar, mas que seu coração sabia ser verdade. A metade inferior da Torre de Aethelgard, sua academia, sua casa, seu mundo, flutuava de cabeça para baixo. Raízes de pedra e metal se estendiam para o céu como os ossos de um leviatã morto. Não havia fogo, não havia fumaça. Havia apenas um silêncio absoluto e aquela visão impossível.
A visão da torre não trouxe pânico. Para o pânico, era tarde demais. Ela o jogou de volta para a prisão.
Não era escuridão. Era um estado de percepção interna absoluta. Seu corpo, uma estátua de carne e osso, tornara-se insensível ao mundo. Ele era uma consciência trancada no teatro de sua própria mente, forçado a assistir reprises infinitas de sua curta vida.
No primeiro ano, ele se agarrou à fogueira da raiva. Cada memória era combustível. O sorriso de escárnio de Zarek, a nota medíocre do professor, o olhar de pena de Elara. Ele poliu cada injustiça até que brilhasse com o fulgor do ódio. A raiva era um propósito. Era a única prova de que ele ainda existia. Ele passou o que parecia uma vida inteira planejando vinganças que nunca aconteceriam. E então, o primeiro pulso veio. Um clarão de luz branca atrás de suas pálpebras, uma vibração profunda que ressoou em seus ossos por um único e chocante segundo, e depois, o silêncio novamente. Um ano havia se passado. O pulso, brutal em sua brevidade, quebrou o ritmo de seu ódio.
Nos anos dois e três, a fogueira diminuiu para brasas. A raiva, sem um inimigo real para consumir, começou a se voltar para dentro. A repetição desgastou as bordas afiadas das memórias. O rosto de Zarek tornou-se apenas um rosto. A nota do professor, apenas um número. Ele começou a analisar a si mesmo com a mesma precisão fria que aplicava à magia. Viu seu próprio orgulho como uma muralha, seu silêncio como uma arma que só feria a si mesmo. Dois pulsos vieram e se foram, cada um um martelo a mais na estátua de seu ressentimento.
Nos anos quatro e cinco, as brasas se extinguiram, deixando apenas uma vasta e profunda solidão. Ele não sentia mais falta da validação. Sentia falta do peso de um cobertor, do sabor da água, do som de passos em um corredor. A memória de Elara mudou. A pena em seus olhos não era mais um insulto, mas o gesto desajeitado de alguém tentando alcançar através do abismo que ele mesmo cavara. A pergunta que assombrava seu vazio não era mais "Por que eu?", mas sim "O que foi que eu perdi enquanto estava tão ocupado sentindo raiva?". O quarto pulso veio, e o quinto ano foi uma aceitação silenciosa.
E agora, liberto, sua mente, por hábito, por necessidade, voltou para o ponto onde tudo começara. O último dia. O dia em que o mundo gritou pela última vez.
O Grande Salão de Aethelgard vibrava. Era o Exame de Graduação Arcana. Mármore flutuava em padrões impossíveis sob um teto de cristal que mostrava galáxias distantes, e o próprio ar zumbia com o poder de uma geração. No centro de tudo, como sempre, estava Zarek. Seu uniforme branco, imaculado, parecia brilhar, as runas douradas em seu peito pulsando em um ritmo lento e arrogante. Ele ria, cercado por admiradores, a personificação da confiança.
Em um canto, Elara estava curvada sobre sua bancada, as mangas arregaçadas, dando um último ajuste em um pequeno autômato de cobre. Seu foco era absoluto, mas por um instante seus olhos cor de cobre se ergueram, encontraram a figura solitária de Kael e se encheram daquela emoção que ele tanto detestava: a pena.
Kael não percebeu. Ou, se percebeu, não demonstrou. Isolado em sua própria mesa, ele estava absorto em sua prancheta rúnica, seus dedos deslizando sobre equações de eficiência de mana. O mundo ao seu redor era apenas ruído.
O teste final foi anunciado pelo Arquimago, sua voz amplificada por magia. "Ativar o Condutor de Energia da Cidade Remota de Silvanis." Um teste de poder bruto, alcance e controle.
Zarek foi primeiro. Ele se moveu para o centro do salão, erguendo as mãos. O ar se condensou ao redor dele. Ele reuniu uma esfera de mana do tamanho de um carro, crepitando com uma energia azul-elétrica que fez os cabelos da primeira fila se arrepiarem. Com um grito que era parte esforço, parte espetáculo, ele a disparou. Um raio de luz ofuscante cortou o salão, e segundos depois, um profundo "BUM" ecoou magicamente de Silvanis, a confirmação do sucesso. A multidão explodiu em aplausos.
Então, foi a vez de Kael. O salão ficou em silêncio, um silêncio pesado de expectativa condescendente. Ele se aproximou do pilar de transmissão, ignorando os murmúrios. Ele colocou a palma da mão na superfície fria e fechou os olhos. Não houve espetáculo. Não houve grito. Ele simplesmente canalizou um fio de mana prateado, tão fino e discreto que era quase invisível a olho nu. Por um longo segundo, nada aconteceu. O riso de Zarek começou a borbulhar. E então, uma pequena luz verde piscou no painel de confirmação. Pura. Estável. Perfeita. Ele havia usado um centésimo da energia.
Foi nesse instante, no auge de sua humilhação pública e de seu triunfo silencioso, que o mundo gritou.
Não foi um som, mas a ausência dele. Um tom agudo e fino que parecia vir de dentro de seu crânio. As cores dos vitrais se inverteram. O ar pareceu se cristalizar. A última coisa que Kael viu antes que tudo se tornasse um branco infinito foi o sorriso arrogante de Zarek se transformar em confusão, e o olhar de pena de Elara se transformar em puro e absoluto terror.
O branco se dissipou, trazendo-o de volta ao presente, ao som de sua própria respiração na clareira. A memória o fez cerrar os punhos, mas não havia mais calor neles. Apenas o frio da realidade.
Ele se forçou a ser lógico. Viu um pássaro, um pisco-azul, congelado no ar a poucos metros do chão, uma asa meio batida. Ele se aproximou, estendendo a mão, mas parando antes de tocar. Seus olhos brilharam com um leve tom prateado enquanto ele sussurrava as palavras de um feitiço diagnóstico. Runas complexas dançaram em suas íris. O pássaro estava saturado de mana, preso em uma estase temporal perfeita. Ele olhou para suas próprias mãos, vazias, quietas.
"Então foi isso...", ele murmurou, sua voz rouca pelo desuso. "O tempo me libertou porque eu tinha muito pouco para ele consumir."
A paralisia era um cadeado, e a mana, o tamanho da corrente.
Guiado por um impulso que ele não questionou, ele caminhou pela clareira. E então, ele a encontrou. Encostada em uma árvore antiga, como se tivesse apenas parado para descansar, estava Elara. Congelada. Seus olhos cor de cobre estavam arregalados, a boca aberta em um grito que nunca saiu. O terror puro, absoluto, estava estampado em seu rosto.
Algo dentro de Kael, algo que fora forjado nos cinco anos de silêncio, se moveu. Ele não viu a garota que sentia pena dele. Ele viu a personificação da prisão da qual acabara de escapar. Aquele terror em seu rosto era um eco do que ele sentira, esticado por uma eternidade. O ressentimento era uma poeira distante. O que restava era um dever. Uma responsabilidade esmagadora.
Ele deu um passo à frente, hesitante. E, pela primeira vez em cinco anos, tocou outra pessoa. Sua mão pousou no ombro dela. Era como tocar uma estátua de mármore frio. E através do contato, ele sentiu. A torrente de poder mágico contida dentro dela. Uma reserva de mana estável e forte, uma montanha de energia adormecida. Ele recolheu a mão, olhando para seus próprios dedos, sentindo o vazio insignificante que era seu poder. A tarefa à sua frente era de uma escala cósmica.
Por onde um inseto sequer começa a mover uma montanha?

